Partindo de uma observação instigante de José Miguel Wisnik sobre a carta em que Mário de Andrade fala de sua homossexualidade a Manuel Bandeira, o texto pretende discutir algumas estratégias discursivas de elaboração e enunciação da sexualidade em regimes de rechaço da dissidência. O caso suscita a hipótese de um desejo de poder que opera pela extirpação do dado incontornável da sexualidade para pessoas queer que articulam seus projetos em função de uma autoria, sobretudo quando a posterior narrativa histórico-filosófico-literária visa ao enquadramento dessa autoria num cânone. A revelação tardia da carta jogou luz sobre um ambiente em que o rechaço aparece como justificativa de um desejo de sigilo, com a presunção de salvaguarda jurídica da memória e da história. O caso pode ser pensado como um progressivo e eloquente apagamento das marcas localizadas de sujeito de um cânone no estabelecimento do que deixa como legado. Se “o sexo é impenetrável”, na expressão de Wisnik, isso também diz da opacidade daquilo que é capturado na interpretação de obras articuladas por sujeitos dissidentes investidos na função de autor. Ao final, descobre-se a bem-sucedida estratégia poética de Mário de Andrade, que manipula o silêncio para dizer de si o que é interditado pelo discurso.