Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão: 'A vitória contra a morte e o apagamento' ou 'A iluminação como metáfora do que se descobre'. Ou autobiografia “inventada” ilumina a escuridão

Convergência Lusíada

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ISSN: 2316-6134
Editor Chefe: Ida Alves
Início Publicação: 15/05/2024
Periodicidade: Semestral
Área de Estudo: Linguística, Letras e Artes, Área de Estudo: Artes, Área de Estudo: Letras

Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão: 'A vitória contra a morte e o apagamento' ou 'A iluminação como metáfora do que se descobre'. Ou autobiografia “inventada” ilumina a escuridão

Ano: 2026 | Volume: 37 | Número: 56
Autores: Ângela Beatriz de Carvalho Faria
Autor Correspondente: Ângela Beatriz de Carvalho Faria | [email protected]

Palavras-chave: Escrita de si, Memória cultural, Autobiografia ficcional, Imagem sobrevivente, Teolinda Gersão, Romance português contemporâneo

Resumos Cadastrados

Resumo Português:

Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão, Prêmio APE 2024, romance baseado na memória cultural e na arte do arquivo, resultou da leitura, durante três anos e meio, da correspondência entre Sigmund Freud e pessoas muito próximas a ele. Após debruçar-se atentamente para os documentos – reproduzidos entre aspas no espaço ficcional – a autora levou, aproximadamente, cerca de três anos para escrevê-lo. E através de uma “escrita de si”, em primeira pessoa, optou pela temática do duplo, ao assumir-se como Martha Freud, através de um sedutor e interminável jogo de espelhos que visa dessacralizar a eminente figura do “Pai” da Psicanálise. Ao rasurar o tradicional gênero autobiográfico, o relato baseia-se no ato de pensar, em que o espaço da interioridade e da afetividade deve ser dito para existir e escapar da censura. Através de uma “Nota Inicial”, a autora revela o objetivo do seu processo de escritura: reconstituir o percurso existencial de Martha Freud, retirando-a da sombra a que foi relegada pela História. Ao sair da obscuridade, a personagem feminina libertar-se-á dos traumas do passado e adquirirá a sua merecida luz, ao vivenciar o “retorno do enterrado”, o que a aproximará da figura da Gradiva e da ninfa warbuguiana teorizada por Didi-Huberman, em A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. As reflexões de Leonor Arfuck, presentes em Memoria y autobiografia: exploraciones en los limites, permitem-nos afirmar que o romance surge como uma forma não canônica, híbrida e intersticial do gênero autobiografia.



Resumo Inglês:

Unwritten autobiography of Martha Freud, by Teolinda Gersão, APE Award 2024, a novel based on memory and the art of archiving, resulted from reading, over three and a half years, the correspondence between Sigmund Freud and people very close to him. After carefully delving into the documents – reproduced in quotes within the fictional space – the author took approximately three years to write it. And through a “writing of the self,” in the first person, she chose the theme of the double, assuming herself as Martha Freud, through a seductive and endless game of mirrors that aims to demystify the eminent figure of the “Father” of Psychoanalysis. By revising the traditional autobiographical genre, the account is based on the act of thinking, where the space of interiority and affectivity must be expressed in order to exist and escape censorship. Through an “Initial Note,” the author reveals the objective of her writing process: to reconstruct the existential path of Martha Freud, bringing her out of the shadow to which she was relegated through History. Emerging from obscurity, the female character will free herself from the traumas of the past and acquire her well-deserved light by experiencing the “return of the buried,” which will bring her closer to the figure of Gradiva and the Warburgian nymph theorized by Didi-Huberman, in A imagem sobrevivente: históriadaarte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. The reflections of Leonor Arfuck, existents in Memoria y autobiografia: exploraciones em los limites, allows us to state that reader will be enthralled by this non-canonical, hybrid, and interstitial form of the autobiography genre.



Resumo Espanhol:

* A Autobiografia Não Escrita de Martha Freud *, de Teolinda Gersão, vencedora do Prêmio APE de 2024, é um romance baseado na memória e na arte de arquivar, fruto de três anos e meio de leitura da correspondência entre Sigmund Freud e pessoas muito próximas a ele. Após uma meticulosa imersão nos documentos — reproduzidos entre aspas dentro do espaço ficcional — a autora levou aproximadamente três anos para escrevê-lo. Em narrativa em primeira pessoa, ela escolheu o tema do duplo, assumindo a identidade de Martha Freud, por meio de um sedutor e incessante jogo de espelhos que busca desmistificar a eminente figura do "pai" da psicanálise. Ao revisitar o gênero autobiográfico tradicional, a narrativa se baseia no ato de pensar, onde o espaço da interioridade e da afetividade precisa ser expresso para existir e escapar da censura. Através de uma "Nota Inicial", a autora revela o objetivo de seu processo de escrita: reconstruir a trajetória existencial de Martha Freud, resgatando-a da sombra à qual a história a relegou. Emergindo das trevas, a personagem feminina se libertará dos traumas do passado e alcançará a luz que merece ao vivenciar o "retorno do sepultado", o que a aproximará da figura de Gradiva e da ninfa warburgiana teorizada por Didi-Huberman em * A Imagem Sobrevivente: Uma História da Arte e o Tempo dos Fantasmas Segundo Aby Warburg* . As reflexões de Leonor Arfuck, presentes em *Memória e Autobiografia: Explorações nos Limites* , permitem afirmar que o leitor será cativado por essa forma não canônica, híbrida e intersticial do gênero autobiográfico.



Resumo Francês:

L’Autobiographie inédite de Martha Freud, de Teolinda Gersão, lauréate du prix APE 2024, est un roman qui explore la mémoire culturelle et l’art de l’archivage. Fruit de trois années et demie de lecture de la correspondance entre Sigmund Freud et ses proches, il a nécessité un examen attentif des documents – reproduits entre guillemets au sein de l’espace fictionnel – et près de trois ans d’écriture. À travers une « écriture de soi », à la première personne, elle choisit le thème du double, s’identifiant à Martha Freud, dans un jeu de miroirs séduisant et incessant qui vise à désacraliser la figure emblématique du « Père » de la psychanalyse. Subvertissant le genre autobiographique traditionnel, le récit s’appuie sur l’acte de penser, où l’espace de l’intériorité et de l’affectivité doit s’exprimer pour exister et échapper à la censure. À travers une « Note initiale », l’auteure dévoile l’objectif de sa démarche : reconstituer le parcours existentiel de Martha Freud, la soustrayant à l’ombre où l’Histoire l’a reléguée. En émergeant de l’obscurité, le personnage féminin s’affranchit des traumatismes passés et accède à la lumière qui lui est due, vivant le « retour de l’enfoui », ce qui la rapproche de la figure de Gradiva et de la nymphe warburgienne théorisée par Didi-Huberman dans L’Image survivante : Histoire de l’art et le temps des fantômes selon Aby Warburg. Les réflexions de Leonor Arfuck, présentes dans Mémoire et autobiografie : explorations en los limites, permettent d’affirmer que le roman se présente comme une forme non canonique, hybride et interstitielle du genre autobiographique.