Este artigo investiga o papel do Clima Positivo de Erro (CPE) como dispositivo epistemológico e político-pedagógico na formação inicial de professores de Matemática. Toma-se como objeto de análise a tematização pública do erro no ensino de Pré-Cálculo e seus efeitos sobre a reorganização dos critérios de legitimidade matemática mobilizados por licenciandos. Teoricamente, articulam-se a pedagogia problematizadora de Paulo Freire — em torno das categorias inacabamento, dialogicidade, rigorosidade metódica e amorosidade — e a Educação Matemática Crítica de Ole Skovsmose — em torno dos conceitos cenários para investigação, risco pedagógico, ideologia da certeza, foreground e responsabilidade. A partir dessa articulação, sustenta-se que o CPE constitui um sistema tridimensional (afetivo, cognitivo e político-institucional) sem o qual a defesa teórica do erro como recurso pedagógico permanece como retórica inoperante. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, com desenho de estudo de caso e narrativa reflexiva do professor-pesquisador. O corpus é constituído por gravação em áudio do primeiro encontro de uma turma de Pré-Cálculo, produções escritas dos licenciandos, registros do quadro e notas reflexivas. A situação disparadora consistiu em uma demonstração algébrica que conduz ao absurdo 2 = 1 por meio de uma divisão encoberta por zero. A análise interpretativa mostra que a tematização pública do erro deslocou o foco da busca pela resposta correta para a explicitação das condições de validade das operações, favoreceu a passagem de justificativas procedimentais para justificativas conceituais e condicionais e instaurou, simultaneamente, um regime de exposição protegida e exigência argumentativa. Conclui-se que o CPE não é estratégia metodológica adicional, mas posicionamento ético-político que reconfigura o contrato didático e cria condições para uma formação docente comprometida com rigor matemático e justiça curricular.