A partir do caso de Población La Victoria, este artigo explora a emergência da identiÂ
dade de bairro gerada pela experiência de dois fatos traumáticos mediados por situações
de violência: a tomada de terrenos que lhe deu origem (1957) e a resistência à ditadura
militar (1973Â1989). A tensão entre conflito e violência experimentados poderia ter
configurado uma memória traumática e um relato vitimizante, mas criouÂse um relato
heróico baseado num ideário de luta, solidariedade e organização. Ele unificaria ambas
as experiências numa narrativa especÃfica, pois a ditadura veio a dar continuidade
à memória dos fundadores, e a tomada forneceu um universo de significações que
permitiu compreender a resistência à ditadura como uma extensão da epopeia de
1957. Para isso foi fundamental a circulação do relato mediante mecanismos como a
reprodução do mito de origem, a toponÃmia e o muralismo.