Este artigo analisa o breve Programa Brasil–Estados Unidos de Desenvolvimento e Organização da Comunidade (BEMDOC), implementado no Rio de Janeiro entre 1964 e 1966 no âmbito da Aliança para o Progresso. Longe de se tratar apenas de um experimento de melhorias pontuais nas favelas cariocas, o BEMDOC funcionou como uma “zona de contato” transnacional em que técnicos, instituições e moradores negociaram modelos de autoajuda, participação comunitária e modernização no contexto da Guerra Fria. Com base em um corpus diversificado de fontes, o artigo reconstrói a atuação do programa em quatro favelas: Vila da Penha, Morro da Liberdade, Jacarezinho e Nova Brasília. O estudo mostra como assembleias de moradores, projetos de saúde e cursos de capacitação se transformaram em arenas de negociação entre medicina popular e atenção institucional, lideranças locais e autoridades externas, bem como entre visões opostas de cidadania e pertencimento urbano. O artigo argumenta que o BEMDOC condensou as promessas e os limites do desenvolvimento na Guerra Fria: ao mesmo tempo em que promovia pedagogias cívicas e planejamento técnico, reconfigurava relações de poder, moldava identidades profissionais e buscava formar uma classe média democrática e produtiva, enquanto revelava as tensões entre o planejamento concebido “de cima” e as práticas cotidianas, demandas e formas de vida “de baixo”. Em última instância, o BEMDOC revela como a modernização dos programas realizados em parceria entre agências internacionais e instituições locais foi construída no dia a dia, em meio a acordos precários, fricções persistentes e negociações constantes entre os atores envolvidos.
This article explores the short-lived Brazil–United States Community Development and Organization Program (BEMDOC), implemented in Rio de Janeiro between 1964 and 1966 in the context of the Alliance for Progress. Far from being a mere experiment in favela improvements, BEMDOC functioned as a transnational “contact zone” where experts, institutions, and favela residents negotiated models of self-help, community participation, and modernization in the context of the Cold War. Drawing on a diverse corpus of sources, the article reconstructs the program’s operations in four favelas: Vila da Penha, Morro da Liberdade, Jacarezinho, and Nova Brasília. A detailed study of Vila da Penha reveals how neighborhood association meetings, health initiatives, and vocational training became arenas of negotiation between popular medicine and institutional care, local leaderships and external authorities, and competing visions of citizenship and urban belonging. The article argues that BEMDOC condensed both the promises and the limits of Cold War development: while promoting civic pedagogies and technical planning, it reconfigured power relations, shaped professional identities, and sought to foster a democratic and productive middle class. Ultimately, BEMDOC demonstrates how modernization was produced in everyday life through precarious agreements, persistent tensions, and ongoing negotiations among the actors involved.
Este artículo examina el efímero Programa Brasil–Estados Unidos de Desarrollo y Organización de la Comunidad (BEMDOC), implementado en Río de Janeiro entre 1964 y 1966 en el marco de la Alianza para el Progreso. Lejos de ser un simple experimento de mejoras puntuales, BEMDOC funcionó como una “zona de contacto” transnacional donde expertos, instituciones y residentes de favelas negociaron modelos de autoayuda, participación comunitaria y modernización en el contexto de la Guerra Fría. A partir de un corpus diverso de fuentes el artículo reconstruye el funcionamiento del programa en cuatro favelas: Vila da Penha, Morro da Liberdade, Jacarezinho y Nova Brasília. El estudio detallado de Vila da Penha muestra cómo asambleas vecinales, proyectos de salud y capacitación laboral se convirtieron en arenas de negociación entre medicina popular y atención institucional, liderazgos locales y autoridades externas, y visiones contrapuestas de ciudadanía y pertenencia urbana. El artículo sostiene que BEMDOC condensó las promesas y los límites del desarrollo en la Guerra Fría: al tiempo que promovía pedagogías cívicas y planificación técnica, reconfiguraba relaciones de poder, moldeaba identidades profesionales y buscaba formar una clase media democrática y productiva. En última instancia, BEMDOC revela cómo la modernización se fabricó cotidianamente en acuerdos precarios, fricciones persistentes y negociaciones constantes entre los actores involucrados.