Nesse artigo, oferecemos uma reflexão sobre as práticas de feminização dos homens heterossexuais no espaço do erotismo, especialmente em suas formas mais contundentes e psiquicamente ameaçadoras, de que tomamos como exemplos a erotização anal masculina e os erotismos tântrico e taoísta. Essas práticas feminizantes, embora venham exercendo, nas últimas décadas, crescente fascínio sobre muitos homens héteros, seguem produzindo forte repulsa psíquica e permanecem, por consequência, segregadas no terreno da ininteligibilidade cultural. Com vistas a contribuir para a elaboração teórica sobre o tema em psicanálise, buscamos, mais especificamente, sugerir a relativização, expansão e complexificação da noção de repúdio à feminilidade pelos sujeitos masculinos heterossexuais formulada por Freud (1991 [1937]), atualizando-a pela e para a contemporaneidade cultural. Desse movimento de atualização, entendemos que deveria resultar, conceitualmente, uma menor ênfase dessa noção freudiana sobre a repulsa e um maior espaço, nela, ao fascínio dos homens héteros com respeito à sua feminização. Ao recorrer a conceitual não apenas do campo psicanalítico contemporâneo, mas também do campo dos estudos de gênero e sexualidade, procuramos ainda situar nosso trabalho teórico em um horizonte (micro)político, tendo em vista o papel central desempenhado pelo repúdio à feminilidade na reprodução da heteronormatividade, da misoginia e da homofobia.