Este artigo analisa os complexos desdobramentos da introdução do sal e de outros alimentos entre os Karitiana em Rondônia. Argumento que as mudanças trazidas com o contato nos hábitos alimentares dos povos indígenas são vias de acesso privilegiadas para a compreensão do aparecimento dos brancos e da convivência com estes, assim como para compreender os processos que vêm sendo descritos como “tornar-se ou metamorfoscar-se em branco”. Partindo do duplo sentido da palavra “gosto” (sabor, paladar ou maneira, hábito), defendo que o contato pode ser descrito como a criação de vínculos que unem as sociedades indígenas à sociedade envolvente, por meio da transformação dos corpos via alterações na dieta, e do cenário que extrapola estas mudanças, e coloca em pauta a relação de poder expressa no amansamento dos índios e na criação da necessidade e da dependência desses novos alimentos. Sugiro, ainda, que para os Karitiana, o convívio com os brancos e a adoção de sua comida expressam um movimento de transformação deste povo indígena seguindo orientações míticas e cosmológicas préexistentes. Este processo não pode ser descrito como aculinração, e seus desdobramentos apontam para as relações entre desejos, práticas sociais e trajetórias históricas que influenciam a história do contato e do convívio interétnico.