O presente ensaio analisa a presença de artistas octogenários – notadamente Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso – nas manifestações políticas de 21 de setembro de 2025 no Brasil. O objetivo é problematizar o senso comum que associa a velhice ao ocaso e à incapacidade, propondo, em contrapartida, a noção de um “envelhecimento desejante”, interpretado como um contradispositivo ao etarismo e aos mecanismos de vigilância e controle sobre os corpos envelhecidos. Com base em uma análise cultural de evento político-musical ocorrido no Rio de Janeiro em protesto contra a chamada Proposta de Emenda à Constituição da Blindagem, o estudo articula os conceitos de esfera pública técnico-midiatizada de Richard Miskolci e as transformações do solo moral de Paula Sibilia para contextualizar a performance dos artistas destacados. Os resultados indicam que a atuação desses músicos no espaço público não representa apenas um ato simbólico, mas a manifestação de uma potência que aponta para o envelhecimento como fonte de autoridade moral e engajamento cívico. Tal fenômeno desafia o modelo etarista e jovencêntrico de atribuição de valor sociocultural e aponta para a necessidade de novas formas de encarar e vivenciar o envelhecer na contemporaneidade.
This essay examines the presence of octogenarian artists– Gilberto Gil, Chico Buarque and Caetano Veloso – during the political demonstrations that took place in Brazil on September 21, 2025. The aim is to challenge the common sense that associates old age with decline and incapacity; instead, it proposes the concept of desiring aging. Methodologically, the essay conducts a cultural analysis of the event, interpreted as a counter-dispositive to ageism and to the mechanisms of surveillance and control over aging bodies. The discussion articulates the notions of Richard Miskolci’s techno-mediatized public sphere and Paula Sibilia’s transformations of the moral ground to contextualize the artists’ performance. Findings suggest that the appearance of these aging bodies in public space represents not only a symbolic act but also the manifestation of a political and cultural potency that redefines aging as a source of moral authority and civic engagement. The analysis further indicates that this phenomenon challenges the paradoxical models of aging fostered by the media and consumer culture, pointing to the need for renewed narratives of old age in contemporary societies.