INTRODUÇÃO: Fibrose Cística (FC) é uma doença na qual mutações genéticas ocasionam alterações na produção e função da proteína CFTR, comprometendo os canais de cloro nas células epiteliais de glândulas exócrinas, levando à disfunção de órgãos e sistemas e possíveis alterações odontológicas.
OBJETIVO: Descrever características odontológicas das crianças e adolescentes com diagnóstico de FC acompanhadas em um centro de referência pediátrico.
METODOLOGIA: Trata-se de estudo transversal e descritivo de pacientes entre 0 e 18 anos, com diagnóstico de FC, acompanhados entre os anos de 2019 e 2021. Dados clínicos-microbiológicos e odontológicos foram obtidos dos prontuários, referentes aos atendimentos da equipe multiprofissional (sexo, idade, comorbidades, função pancreática, sintomas respiratórios, perfil genético, medicações, cárie, defeitos estruturais de esmalte dentário, análise da oclusão, sialometria e pH salivar). Os dados de sialometria e pH foram coletados de crianças capazes de cuspir, a partir dos 7 anos de idade. O perfil microbiológico foi obtido através de amostras de biofilme lingual (BL) e de secreções respiratórias (escarro ou esfregaço de orofaringe).
RESULTADOS: Foram incluídos 57 pacientes, 56,1% do sexo masculino. Os pacientes de 0-7 anos corresponderam a 47,4% e de 8-18, 52,6%. Do total de pacientes, 84,2% eram classificados como pancreato-insuficientes, 17,9% tinham gastrostomia ou sonda e 75,4% tinham sintomas respiratórios. Em 66,7% dos indivíduos, a mutação genética mais frequente foi F508del. Em relação às medicações, 84,2% usavam enzimas pancreáticas, 64,9% mucolíticos, 47,4% antibiótico inalado e/ou sistêmico, 45,6% corticóide inalado e 96,5% vitaminas e reposição hidroeletrolítica. Em relação às características odontológicas, 75,6% dos pacientes apresentaram ph básico, que pode ter um efeito protetor ao desenvolvimento de cárie; 53,7% baixo fluxo salivar; 15,8% sequelas de cárie e 38,6% hipomineralização de molar-incisivo. Quanto ao perfil microbiológico, os germes mais frequentes na secreção respiratória (SR) foram S. aureus e P. aeruginosa. Houve correlação de detecção dos patógenos entre os sítios de coleta (SR e BL) de 57,9%. Quanto aos fungos, o mais comum foi C. albicans, sendo a correlação de 70,2%. Pacientes com bactérias na SR apresentaram 7,2 vezes mais chance de ter bactérias no BL e pacientes com fungos na SR 9,4 vezes mais chance de ter fungos no BL. Indivíduos que utilizaram antibiótico apresentaram 6,2 vezes mais chance de ter fungos no BL.
CONCLUSÃO: A maioria dos pacientes apresentaram variações no fluxo salivar, no pH e/ou defeitos estruturais do esmalte dentário. Houve correlação entre os resultados da cultura do BL e SR. Isso evidencia a importância da avaliação odontológica periódica desses pacientes, que inclui profilaxia, avaliação e controle dos efeitos das medicações, controle dos pacientes com defeitos de esmalte, além de terapias para estimular o fluxo salivar, buscando a abordagem oportuna e impactos positivos na saúde sistêmica e qualidade de vida.