Os sistemas de conhecimento ecológico tradicional (TEK) expressam formas complexas de interação entre sociedades humanas e plantas, incluindo usos tecnológicos ainda pouco explorados na etnobotânica. Na Amazônia, o uso do caraipé (Licania octandra) exemplifica essa dimensão, sendo empregado como aditivo na produção cerâmica. Evidências arqueológicas indicam sua presença em cerâmicas amazônicas há cerca de 4.000 anos, revelando a persistência de saberes de origem indígena. Este estudo analisou o uso etnobotânico do caraipé na comunidade Vila Cuera (Bragança-PA), considerando formas de obtenção, processamento e aplicação. A pesquisa adotou abordagem qualitativa e etnográfica, com observação participante, entrevistas e análise de práticas locais, articuladas a experimentos físico-materiais. Os resultados demonstram que o caraipé melhora propriedades da cerâmica, corroborando o conhecimento tradicional. Conclui-se que seu uso evidencia a sofisticação de práticas tecnológicas tradicionais e amplia o campo da etnobotânica para usos vegetais de natureza técnica.