A partir do referencial teórico e metodológico da Análise de Discurso de linha francesa, o trabalho de pesquisa consistiu na constituição e análise de um corpus formado por respostas de professores de Língua Portuguesa do ensino básico a um formulário contendo três questões: “O que é conteúdo de ensino-aprendizagem da disciplina Língua Portuguesa? Que conteúdo ensinar em Língua Portuguesa e por que ensiná-lo? De que maneira o conteúdo de Língua Portuguesa poderá contribuir para a formação cidadã do educando?” A análise permitiu a confirmação da hipótese da existência de dois discursos em um intricado jogo de oposição, embate, ambiguidade e entrelaçamento: o Discurso Pedagógico Tradicional sobre o conteúdo de Língua Portuguesa (DPT) e o Discurso sobre o conteúdo de Língua Portuguesa advindo dos Estudos Linguísticos Funcionalistas (DELF). O que compreendemos por DPT não é apenas uma questão de dizeres sobre o ensino de gramática normativa no ensino básico, discussão antiga, embora ainda atual. O DPT corresponde também à tradição de crenças e valores escolares que se consubstanciam e se fundamentam ideologicamente em práticas pedagógicas tradicionais. Compreendemos por DELF todos os saberes e dizeres sobre o conteúdo e a prática pedagógica de Língua Portuguesa enunciados a partir dos campos epistemológicos dos Estudos Linguísticos que concebem o texto, nas modalidades oral ou escrita e nas multimodalidades, em seus aspectos discursivos, pragmáticos, semântico-conceituais e formais como o objeto precípuo de ensino e aprendizado na educação básica. O DPT e o DELF estabelecem uma luta simbólica pela hegemonia na determinação do conteúdo de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa no ensino básico. O primeiro estabelece relações de resistência, de permanência. O segundo busca conquistar espaço e legitimidade. Os resultados dessa luta simbólica foram analisados nas seções deste artigo.