No Brasil ainda existem muitas pessoas surdas que não adquiriram a língua portuguesa nem a língua de sinais. Essas pessoas desenvolvem um conjunto de gestos compartilhados no âmbito familiar, com os quais se comunicam. Ape-sar de atender a necessidades bá-sicas, esses gestos são insuficientes para cumprir as funções da lingua-gem quanto à interação social e o desenvolvimento cognitivo. A busca da escolarização na idade adulta e o contato com a língua permitem o incremento de novas formas de lidar com a realidade simbólica, na qual o sujeito é desafiado a alcançar competências linguísticas a partir de uma ferramenta cultural com a qual dá novo sentido ao mundo e a si mesmo. O processo tem uma singularidade por ocorrer na idade adulta, envolver a aquisi-ção simultânea de duas línguas em modalidades diferentes (escrita e viso-espacial) e mobilizar um sujei-to que já tem toda uma experiência de vida definida à margem das práticas culturais da sociedade onde vive para um processo de desenvol-vimento linguístico, envolvendo a aquisição de língua, algo que ocorre, normalmente na infância. Esse caráter singular se caracteriza por mesclar diversos recursos sígnicos: gestos, sinais, escrita, datilologia ensejando a investigação sobre as formas como se dá a construção do significado nesse contexto. Na perspectiva do desenvolvimento como processo fomentado pelas condições sociais e da deficiência como condição que promove novas formas de desenvolvimento, esta investigação irá analisar o processo de construção do significado em razão das condições dialógicas e se-mióticas que se constituem quando os sujeitos entram em interação. É uma pesquisa qualitativa com foco nas interações verbais. Para isso fo-ram selecionados episódios dentro de um conjunto de observações registradas por videogravação no período de um ano com alunos adultos surdos que estão inseridos num projeto de letramento. Apesar dos raros estudos sobre aquisição da primeira língua na idade adulta, essa pesquisa delineia os diversos recursos linguísticos utilizados por esses alunos, bem como as relações que se estabelecem tanto no discurso falado com no escrito, mostrando as especificidades do sujeito surdo como resultado de sua condição e do incremento de ferramentas culturais alternativas, que resulta numa forma própria de desenvolvimento.